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Diacronia: ensaios de comunicação, cultura e ficção científica
Diacronia: ensaios de comunicação, cultura e ficção científica
João Matias de Oliveira Neto, Wander Shirukaya (orgs.)
Série Veredas, 32. Paraíba: Maca de Fantasia, 2015. 231p.
ISBN 978-85-67732-42-8.

Ebook em pdf: Diacronia

O estudo e a análise da narrativa de ficção científica (FC) foi nos EUA e na Europa uma atividade restrita a um pequeno número de escritores e críticos sem vínculo acadêmico durante várias décadas. Somente a partir dos anos 1970 começou a surgir em alguns daqueles países uma geração de estudiosos, dentro da Universidade, voltados para o exame da FC e de suas relações com outras áreas do conhecimento.

No Brasil, esse fenômeno é ainda mais recente, mas tende também a se ampliar cada vez mais. Uma geração que leu quadrinhos na infância, jogou videogames na adolescência e leu romances de FC na juventude sente-se à vontade para analisar essas obras, que fazem parte de sua história pessoal, e às quais elas retornam agora, munidas de outro tipo de abordagem, e usando uma visão analítica distanciada. O modo acadêmico de análise contrabalança o envolvimento emocional. O pesquisador, sendo um “fã”, tem a possibilidade de analisar que tipo de impacto aquelas narrativas produzem nos fãs, que tipo recepção estética elas preparam e cultivam; em suma, por que motivo aquelas narrativas, e não outras, se tornaram a principal referência de visão-do-mundo em suas próprias vidas. A análise da FC pelo acadêmico-fã é (ou deveria sê-lo) um processo de autoexame, autoconhecimento e autocrítica.

Data de por volta dos anos 1940 a expressão sense of wonder, ou “senso de maravilhamento, de deslumbramento” usada por muitos críticos para descrever a impressão produzida por certos momentos culminantes da FC sobre a mente de um leitor jovem. A noção de que o Universo é algo muito mais complexo e fascinante do que o mundo que o leitor tem à sua volta; de que ele é cheio de mistérios assombrosos que, quando solucionados, revelam respostas mais assombrosas ainda; de que coisas espantosas, mas que fazem sentido, nos esperam no dobrar de cada esquina. A pulp fiction dos anos 1930-50 criou uma geração de leitores que é a atual geração de escritores veteranos de FC ainda em atividade, e para eles essa emoção de descoberta está na raiz de sua experiência com o gênero.

Outro termo proposto para descrever essa reação mental do leitor diante das revelações assombrosas da FC foi cognitive estrangement, sugerido por Darko Suvin. O termo pode ser traduzido por “distanciamento, ou estranhamento cognitivo”, e alude ao famoso “distanciamento brechtiano” (Verfremdungseffekt) no teatro: uma representação em que o espectador se dá conta simultaneamente de duas realidades superpostas, a da cena mostrada e a dos atores que as interpretam. Isto lhe possibilita, num efeito de  metalinguagem, nunca perder de vista que o que está presenciando não é “a Realidade”, mas uma representação estética dela, e que o sentido daquilo tudo só pode ser obtido mediante uma síntese conceitual entre os dois. Bertolt Brecht usava este efeito, também, ao ambientar numa realidade distante (a China ou a América) uma questão social da sua Alemanha contemporânea. Projetando-a numa paisagem distante, podia contar apenas o esqueleto essencial da sua história, nua e crua. Não é outra coisa o que a FC faz, pegando situações individuais e coletivas e transportando-as para planetas distantes ou futuros remotos, despojando-as de tudo que seja acessório e circunstancial.

Por sua vez, o crítico Peter Nicholls, na Encyclopedia of Science Fiction (versão online em http://www.sf-encyclopedia.com), propôs o termo conceptual breakthrough para descrever o processo mediante o qual a narrativa de FC instala de início o personagem (e o leitor) numa interpretação banal do mundo que vai aos poucos se tornando problemática, insatisfatória, até que uma revelação qualquer nos mostra que nada era o que parecia, e que o personagem vive uma situação muito mais complexa e inesperada. Dá-se então a ruptura de conceitos, com o paradigma anterior sendo destruído e cedendo lugar ao paradigma mais amplo, capaz de racionalizar todos os fatos inexplicáveis ocorridos até então. Exemplos clássicos disto são narrativas como o filme O Show de Truman de Peter Weir, no qual o mundo pacato do protagonista revela-se uma elaborada encenação; o conto “O Cair da Noite” de Isaac Asimov (1941), em que os habitantes de um planeta cercado por muitos sóis experimentam pela primeira vez a noite; o livro Simulacron-3 de Daniel F. Galouye (1964) e sua adaptação cinematográfica O 13o Andar de Josef Rusnak (1999), em que os personagens descobrem estar vivendo dentro de uma simulação de computador.

Efeitos como estes estão na medula da grande ficção científica, a que se define não pelo aparato exterior de imagens e situações (espaçonaves, outros planetas, alienígenas, máquinas fantásticas, etc.) mas pela mecânica interna do seu processo de contar histórias com os olhos da Ciência, olhos sempre atentos para as contradições conceituais e as mudanças de paradigma que a Ciência percebe e impulsiona.

Esses processos tanto podem conduzir a uma visão otimista e triunfalista do papel da Humanidade no Universo, como a que foi cultivada pela chamada “Golden Age” da FC, como à visão mais dark, cínica e pessimista das últimas décadas, em que o ser humano é visto cada vez mais, numa espécie de insistente paranoia, como alguém manipulado por megacorporações, por potentados financeiros, pelo complexo industrial-militar, pelo terrorismo. Ou então a crescente onda de narrativas, em parte influenciadas por Philip K. Dick, em que o conceito do Real se desagrega pela ação de drogas cada vez mais potentes, ou mergulhado em realidades virtuais de variadas naturezas.

Diacronia, este conjunto de ensaios de jovens estudiosos, faz um balanço de algumas tendências conceituais recentes na FC, dando certa ênfase à influência de movimentos como o cyberpunk e aos conceitos de representação e de simulação.

O ensaio de Antonio Maranganha aborda as diferentes definições do humano que se pode extrair do uso da FC, com suas figuras de linguagem, seus ícones, seus temas universais, tudo isto contribuindo ora para expandir as fronteiras do humano, ora para colocá-lo em crise. Toda a parafernália de seres naturais e artificiais gerada pelos escritores de FC serve como uma galeria de espelhos deformadores em que a humanidade se vê transformada num Outro irredutível, por mais que guarde semelhanças externas e superficiais com o Homem. O conceito maleável de arqui-humano – aquilo que é ao mesmo tempo superior a nós mas tão essencialmente distinto de nós que não admite comparação – é um dos eixos em torno do qual a FC gira sua moenda de histórias há pelo menos dois séculos.

Tiago Franklin explora as possibilidades da FC como ficção capaz de expandir o espaço conceitual, visual e tátil, através de diferentes técnicas, gerando novas organizações de espaço através da arte conceitual. Das experiências meramente visuais (cujo grande salto foi o domínio da perspectiva pictórica no Renascimento) para os ambientes multissensoriais e imersivos contemporâneos, existe uma realimentação mútua constante entre as criações da tecnologia, as invenções da literatura e as realizações da arte. Usando o conceito de cíbrido (ciber + híbrido), ele considera as possibilidades não apenas de mesclagem entre o humano e o cibernético, mas entre tecnologia e arte contemporânea, natureza e redes sociais. Uma espécie de expansão do virtual para o físico, em que nosso ambiente material se torna (como vem sendo sugerido na obra recente de William Gibson) uma paisagem cada vez mais coberta de informação.  

Um outro tipo de mediação tecnológica entre o homem e a realidade é abordado por Jhésus Tribuzi, desta vez no campo da astrofotografia, o registro tecnológico de imagens que o Homem nunca poderá ver a olho nu. É uma faixa da realidade incapaz de ser apreendida diretamente; é preciso confiar na tecnologia. Tecnologias que vão mais longe do que nossos sentidos exigem de nós uma atitude de fé, porque não podemos, inclusive, distinguir fotos autênticas de fotos forjadas ou manipuladas. O paralelo com a FC se dá através das visões do protagonista de The House on the Borderland de William H. Hodgson, em que a mente acessa por si só, sem mediação tecnológica alguma, franjas desconhecidas do Universo, em experiências visionárias que o protagonista é incapaz de compartilhar ou de reproduzir.

Gabriel Lyra examina o poder antecipatório ou profético da FC, apontando numerosos momentos em que ela se antecipa às descobertas científicas ou às inovações tecnológicas. Percorrendo as diversas formas de criação de narrativas (literatura, cinema, quadrinhos, videogames), o autor expõe os traços gerais do projeto interativo Narragonia 3.0, de sua criação.

João Matias discute, através da obra e das ideias de Isaac Asimov, a importância do robô e do computador como possíveis adversários ou aliados do homem, rivalizando com ele em eficiência, mas dotados de uma forma de inteligência qualitativamente distinta. Daí, parte para questionar a noção de modernidade e a “falsificação” do real promovida pela obra literária, produzindo uma representação alterada e paradoxalmente mais fiel à dinâmica do mundo representado.

Finalmente, Wander Shirukaya utiliza os conceitos de Vilem Flusser em sua Filosofia da Caixa Preta para também refletir sobre a representação do real em duas narrativas arquetípicas da FC: o filme Blade Runner e o anime Ergo Proxy. Aqui, mais uma vez, a fotografia surge como exemplo privilegiado da relação do homem com representações que tendem a substituir o real ou a serem confundidas com ele. Há uma perigosa zona intermediária (o “Uncanny Valley”) em que não se consegue distinguir de imediato o humano e o não-humano, e, no caso do filme de Ridley Scott, há mesmo androides que não sabem que o são.

A multiplicidade de temas e de abordagens desta coletânea aponta, em todo caso, para um dos aspectos essenciais da FC em todos os tempos, o de questionar o que chamamos de “realidade consensual”. Esta não passa, na verdade, do equilíbrio precário entre nossas visões individuais, e para se manter precisa ser compulsivamente checada e confirmada a todo instante, processo no qual os meios de comunicação, a mídia ambiente, tem um papel crucial. E o papel da FC é de certo modo o inverso. Não apenas o de nos dizer que não vivemos nem no melhor nem no pior dos mundos, mas o de revelar simplesmente que não sabemos ainda como é o mundo em que vivemos.

Braulio Tavares - Prefácio

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