O CORPO
é Discurso

N. 17
30 de novembro de 2012
Vitória da Conquista, BA. Brasil

ISSN 2236-8221

Jornal do Labedisco
Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Coordenação geral:
Nilton Milanez
Editores:
Nilton Milanez e Ciro Prates (Capes)
Revisão: Tyrone Chaves (UESB) e Sivonei Ribeiro (UESB)
Edição online: Henrique Magalhães

Conselho editorial:

Prof. Dr. Elmo José dos Santos (UFBA)
Profa. Dra. Flávia Zanutto (UEM)
Profa. Dra. Ivone Tavares Lucena (UFPB)
Profa. Dra. Maria das Graças Fonseca Andrade (UESB)
Profa. Dra. Mônica da Silva Cruz (UFMA)
Prof. Dr. Nilton Milanez (UESB)
Profa. Dra. Simone Hashiguti (UFU)

Contato
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O Corpo é Discurso é uma parceria com a editora Marca de Fantasia e está hospedado no sítio www.marcadefantasia.com


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O corpo é discurso

Em sua décima sétima edição, O Corpo é Discurso publica mais duas resenhas que falam sobre corpo e divulga informações acerca de eventos relacionados à Análise do Discurso. Também neste número, fazemos a apresentação do que aconteceu no curso Pensar com Foucault, que está sendo realizado pelo Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo – Labedisco.


Discurso e biopolítica na sociedade de controle

Maria das Graças Amaral (UESB)

Kátia Menezes de Sousa, em seu texto Discurso e Biopolítica na sociedade de controle, afirma que as mídias permitem uma circulação de dizeres que confluem para o entendimento dela como um espaço de circulação de sentidos, o que faz dela um suporte de enunciados diversos, circulando diferentes discursos. Para a autora, essa relação se constitui ainda mais, à medida que a mídia promove o papel de controlar os processos de identificação dos sujeitos através do controle do discurso. Isso faz com que, entre as demandas do povo e as do governo, a mídia haja como mediadora. Para Kátia Menezes, esta situação cria a lei do que pode e o que não pode ser dito. É neste sentido que a autora afirma existir um arquivo de discursos políticos que faz com que a política brasileira seja pensada de um modo e não de outro.

A pesquisadora prossegue afirmando que a governabilidade hoje atinge não um individuo em particular, mas toda sociedade. Para isso, o poder atua não somente pela consciência ou ideologia, mas também pelo corpo. Neste sentido, a medicina contribuiu para uma estratégia biopolítica. Para perceber isso, basta ver que, sob vários ângulos, o controle se dá no interior e no exterior das pessoas, fazendo pensar, por exemplo, a garantia da saúde e da longevidade. Citando Foucault, a autora argumenta que, a partir do século XIX, a soberania deu lugar a biológica, que elege a defesa e a preservação da vida nas táticas de governamentalidade. Para isso, as disciplinas e a biopolítica assumem a função de adestramento do homem. A primeira estipula regras de funcionamento e manutenção do corpo, que passa a ser visto como uma máquina. A segunda, atinge toda a população, em uma gestão sobre bens que devem ser otimizados a toda espécie e não a um único indivíduo. Há, assim, a normalização de mecanismos de disciplinarização que afirmam o que o individuo precisa ter e ser para viver bem. Assim, não há repressão. Isto, que é chamado biopoder, democratiza e convence todos de algo que se pretende ser inerente a todo homem: a busca de um cuidado de si, que o complete em todos os possíveis desejos de subjetivação, que é ter saúde, beleza e conforto. O poder se torna sutil e silencioso. Ele convence sem que o indivíduo perceba.

Nessa busca de uma adequação do individuo, o poder regulariza o que é normal e o que é anormal, criando uma estética do delinqüente, do doente, do perverso. Assim, o poder atribui sentidos pela prática divisora. Ou seja, a vida deve tornar-se mais sadia através da eliminação da derrota, da doença, do incômodo. O poder traça uma partilha sobre os merecedores e os não merecedores. Para a pesquisadora, mesmo que a vida seja o viés por onde a govermentalidade se legitima, atuando com o um definidor entre o justo e o injusto, o saudável e o doente, a violência foi jamais controlada, pois na busca da vida esta também se torna útil.

Referência

SOUSA, Kátia Menezes de. Discurso e biopolítica na sociedade de controle. In: TASSO, Ismara; NAVARRO, Pedro (org.) Produção de identidades e processos de subjetivação em práticas discursivas. Maringá: Eduem, 2012. P. 42–55.


O corpo moldado: corporeidade mediada e subjetivação

Jéssica Figueiredo (UESB)

Entender as formas de subjetivação e os discursos acerca do corpo: essa é a proposta de Poliana Lachi e Pedro Navarro, no texto O Corpo moldado: Corporeidade mediada e subjetivação. Para tanto, os autores mobilizam uma articulação teórica entre postulados da Sociologia, Estudos Culturais e Análise do Discurso, para compreender os efeitos de sentidos produzidos por discursos sobre os corpos dos sujeitos e suas identidades, avaliando elementos fundamentais como a modernidade e a mídia, para estabelecer pontes cognoscíveis cuja finalidade é chegar a uma inteligibilidade da construção do corpo no seio da sociedade. Segundo os autores, partindo do Gidens de “Modernidade e identidade”, a modernidade produz mudanças nas práticas do comportamento e nas instituições e isso ocasiona uma ressignificação daquilo que os autores chamam de “instância última da sociedade”, isto é, do sujeito.

É importante ressaltar, de igual modo, de acordo com os autores, que a mídia tem um lugar privilegiado no modelamento dos corpos, uma vez que, por meio dos avanços tecnológicos, ela coloca em grande circulação os seus produtos, fazendo, em uma rede integrada, emergir, no seio social, transformações profundas e infiltrações na vida cotidiana dos sujeitos, mesmo que essas infiltrações sejam alheias a eles. Os veículos midiáticos engendram, na vida dos sujeitos, novas experiências e, com isso, novas formas de existência e, nesse sentido, novos saberes sobre si e sobre o outro são construídos e colocados em exercício. Dessa forma, o corpo sofre as coações da sociedade e, consoante os autores do artigo, a modernidade e os instrumentos viabilizados a partir dela, institui etapas para a produção de corpos que correspondem à normalização, à modelação, à moralização e ao treinamento, visando, obviamente, torná-lo apto e útil aos anseios da cultura vigente. É nesse sentido que ele – o corpo – não possui nada de natural, como quer alguns, mas é algo construído sócio-historicamente, a partir de investimentos de poder que, inclusive, faz a sua constituição parecer “natural”. É importante ressaltar, por meio da leitura do texto, que os autores, partindo de Prado Souto e Trisotto em O corpo problematizado de uma perspectiva histórico-política, indicam uma diferença entre corpo e corporeidade: o corpo seria o objeto, o “recipiente” sobre o qual a corporeidade seria “depositada”, isto é, a “alma”, a subjetividade dos sujeitos produzida pelo corpo em contato com vários elementos externos. Corpo globalizado, ressignificado, instrumentalizado: é dessa forma que nossa sociedade relega ao corpo a qualidade de região a partir do qual a sensação de pertencimento e de identidade (ou, em todo caso, de uma busca por ela) são deflagradas por meio dos gestos, do uso de tatuagens, piercings e de práticas com o body building e que contribuem para uma estética de si. Assim, Poliana Lachi e Pedro Navarro nos mostra que o corpo e, de modo geral, o sujeito, é fabricado por inúmeros fatores e esses fatores são movidos por investidas de micro poderes que orientam, o tempo inteiro, a sociedade. A forma e a performance do corpo são controlados pela ciência e pela estética, por exemplo, e isso justifica as intervenções no corpo por meio de mudanças alimentares e de exercícios físicos, colocando em evidência a existência do biopoder e, com isso, a configuração do corpo não como algo natural, mas como oriundo e a serviço do discurso.

Referência

LACHI, Poliana; NAVARRO, Pedro. O Corpo moldado: Corporeidade mediada e subjetivação. In: TASSO, Ismara; NAVARRO, Pedro. Produção de identidades e processos de subjetivação. Maringá: Eduem, 2012. p. 17-39.



Ocorreram, nas noites de 20 e 27 de Novembro, a segunda e a terceira palestras do evento Pensar com Foucault, organizado pelo Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo – Labedisco. A primeira apresentação ficou por conta do aluno de mestrado do programa de pós-graduação em Memória, Linguagem e Sociedade, Ciro Prates. O conferencista apresentou o texto O sujeito e o Poder, presente em Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica, de Hubert Dreyfus e Paul Rabinow.

O debate foi conduzido pelo prof. Dr. Nilton Milanez, coordenador do evento, e a atividade contou com um público razoável e participativo, oferecendo discussões a partir de vários pontos de vistas que cada um dos estudantes presentes expunham.

Na noite do último dia 27, a explanação foi de Alex Araújo, doutorando em Memória, Linguagem e Sociedade, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Ele apresentou o texto Poder-Corpo, que faz parte da obra Microfísica do poder, de Michel Foucault.

Pensar com Foucault é mais um projeto desenvolvido no quadro de estudos do Labedisco, sob a coordenação do prof. Dr. Nilton Milanez, no interior do projeto de extensão Análise do Discurso: discurso fílmico, corpo e horror e do projeto de pesquisa Materialidades do corpo e do horror.

    


SEDis - Seminário de Estudos do Discurso

Ocorreu na UFBA, nos dias 12 a 14 de novembro, o SEDis, Seminário de Estudos do Discurso. O evento, que é bianual, teve como tema Verbal, não verbal, verbal-visual e foi organizado pelo Grupo de Estudos do Discurso, Cultura e Sociedade (UFBA/CNPq), Departamento de Letras Vernáculas do Instituto de Letras. O evento demonstrou a transdiscursividade e interdiscursividade, ao aproximar varias falas que, por mais distintas que fossem, na interrogação do relacionamento e questionamento do seu objeto enquanto produção de sentidos no espaço social, se aproximavam no uso do discurso, em suas diferentes abordagens teóricas, o que permitiu um balanço sobre o que vem sendo produzido em diferentes universidades sobre tal tema. Alguns dos principais grupos de pesquisa estiveram presentes para divulgar resultados acerca dos estudos da AD no Brasil.

O Laboratório de Estudos do discurso e do corpo – Labedisco, esteve presente com o seminário temático De cabelo em pé! Horror no cinema e novas materialidades do discurso coordenado pelo prof. Dr. Nilton Milanez, no qual foram apresentados trabalhos de pesquisadores da pós-graduação que versavam sobre materialidades fílmicas e audiovisuais, tomando como fio condutor o entrelaçamento dos postulados da AD francesa, sobretudo de Michel Foucault, com as teorias do cinema.

O Laboratório se fez presente, também, por meio de outras apresentações individuais de alguns dos seus integrantes. No total, o evento realizou três conferências, 10 seminários temáticos, 80 comunicações individuais e 15 pôsteres, destacando-se a presença de grandes pesquisadores da área do discurso: Beth Brait (PUCSP), Nilton Milanez (UESB/ Labedisco) Lucia Teixeira (UFF) e Maria do Rosário Gregolin (Unesp). O evento contou com o apoio do ILUFBA, PPGLinC, PPGLitC, PPGEL (UNEB), PPGCEL (UESB).


Projeto de extensão Linguagem, Ensino e Cinema:
entrelaçamentos de práticas discursivas interdisciplinares

Está ocorrendo na UNEB, campus VI, em Caetité, das 19h às 21h, o projeto de Extensão Linguagem, ensino e cinema: entrelaçamentos de práticas discursivas interdisciplinares, coordenado pela profa. Dnda. Janaina de Jesus Santos, coordenadora do Laboratório de Estudos do Audiovisual e do Discurso – AUDISCURSO. Os encontros têm discutido os entrelaçamentos entre linguagem, ensino e cinema a partir do viés da Análise do Discurso, a fim de levantar e discutir problemáticas da análise de imagens, tanto fixa como em movimento, e evidenciar práticas interdisciplinares no ensino através da abordagem de filmes.

O evento teve início dia 20 de Novembro, quando foram discutidos os diálogos entre cinema e educação. No segundo encontro, dia 27 do corrente mês, as discussões giraram em torno dos elementos da linguagem cinematográfica. O próximo encontro será no dia 04 de Dezembro, que terá como tema a Linguagem do cinema e temas transversais, seguido de planejamento de atividades e análise de filme.


  Dicas de O Corpo é Discurso

Leitura do livro Texto ou Discurso?, escrito por Beth Braith e Maria Cecília Souza-e-Silva.

Leitura do livro Enunciação e sentido, tramas de sentidos, organizado por Maria da Glória di Fanti e Leci Borges Barbisan.

 
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