
Seção de resenhas sobre fanzines e outras revistas independentes
|
Roko-Loko e Adrina-Lina
Hey ho... let's go!
H. Magalhães
Marcio Baraldi é reconhecidamente um vencedor, o que implica em ver no cartunista um espírito batalhador incontestável. A força com que vem promovendo seu trabalho poderia servir de exemplo, ou de guia, para a maioria dos cartunistas brasileiros, que se acomoda na espera de leis de reserva de mercado hipoteticamente redentoras.
Baraldi vai à luta, produzindo enlouquecidamente – no melhor sentido – e abrindo espaço nas mais diversificadas publicações para seu trabalho peculiar. Não que seja fácil conquistar o reconhecimento e ter a aquiescência de editores que, na maioria das vezes, não passam de republicadores, garantidos pelo sucesso editorial confirmado das produções de fora, sem que isto seja um requisito de qualidade.
A estratégia de guerrilha de Baraldi é produzir ininterruptamente, adaptando sua verve criativa ao perfil das publicações em que deseja penetrar. Dessa forma, foi conquistando espaço em revistas e jornais de conteúdo os mais díspares, de manual de mecânica de automóvel até revista de receita de bolo, passando por eróticas, roqueiras, de tatuagem, infantis, adolescentes, de política, espíritas e o que mais se possa imaginar, como afirma em entrevista publicada no fanzine Top! Top!
Em particular no campo do rock n'roll, começou publicando a personagem Johnny Bastardo , um punk proletário, no jornal Rocker , em 1986, que era um tablóide cultural que circulou com sucesso no ABC paulista. Mas seu grande êxito viria mesmo com Roko-Loko e Adrina-Lina , personagens que lhe deram uma expressão particular nas páginas da revista Rock Brigade , a partir de 1996. Essas figuras emblemáticas, que em muito representam o próprio espírito roqueiro e anárquico do autor, logo virariam um símbolo de uma juventude rockeira, permeada pela irreverência, malícia e ingenuidade dos fãs do gênero.
Da Rock Brigade as personagens ganharam o mundo. Logo passaram a figurar em outras revistas do ramo, a exemplo de Roadie Crew , Metalhead , Dynamite , RockHard Valhalla , Comando Rock , Rock Underground e Rock Press . Figuram também na equatoriana Headbanger Magazine e na portuguesa Metalheart . Artista multimídia, Baraldi adaptou Roko-Loko e Adrina-Lina para camisetas, bonecos, jogos para computador e celular, além de vários álbuns com suas aventuras. Essa dimensão multifacetada do trabalho de Baraldi garante-lhe o enorme reconhecimento do público, referendado pelas premiações que tem recebido nas entidades ligadas aos quadrinhos e artes gráficas.
A edição do álbum Hey ho... let's go! , com Roko-Loko e Adrina-Lina , repete a fórmula de sucesso de suas publicações. É uma coletânea de histórias em quadrinhos curtas, quase sempre de uma página, publicadas originalmente na revista Rock Brigade . A pré-publicação, contudo, não tira o brilho do álbum. A reunião das HQ tem o mérito de nos mostrar o universo das personagens em seu conjunto, ao mesmo tempo evidenciando a criatividade de Baraldi ao tratar as diversas facetas do mundo do rock, seja em suas abordagens temáticas, seja nas sátiras hilárias ao seus ídolos.
Dono de um traço ao mesmo tempo extravagante e personalista, as figuras animadas de Baraldi conquistam o leitor pela excentricidade e pelas curiosas resoluções visuais. Para os leitores desatentos a estética de Baraldi pode chocar num primeiro olhar, mas essa impressão de certa forma desconfortável se dobra à primeira leitura, seduzida por seu humor histriônico.
Roko-Loko e Adrina-Lina
Hey ho... let's go!
Marcio Baraldi. São Paulo: Rock Brigade e Grrr!, 2009. 50p. 21x28cm. www.rockbrigade.com.br , www.marciobaraldi.com.br
|