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Outubro de 2016


Fanzine na Educação:
algumas experiências em sala de aula

Fanzine na Educação: algumas experiências em sala de aula
Renato Donisete Pinto
Série Quiosque, 29.
João Pessoa: Marca de Fantasia: 2013. 56p. 13x19cm.
ISBN 978-85-7999-083-0

(prefácio à obra)
A paixão pelos fanzines e pelo corpo gerando práticas educativas desafiadoras

Não faço discurso contra a teoria. Tento chamar a atenção tão somente para as ilusões teóricas e a falta de paixão – o que ocorre quando somos atingidos não pela paixão, mas pelo teórico. Não abandonamos a reflexão. A pedagogia apaixonada também terá seu discurso. Mas será um discurso “sem crença” na eficácia teórica, reafirmando a persuasão da paixão.
Danilo Di Manno de Almeida (1)

Começo lembrando, na epígrafe acima, a afirmação do filósofo de São Bernardo do Campo, no grande ABC paulista, porque este é um trabalho no qual a paixão e a busca de construção científica em educação, dado que é uma monografia de conclusão de um curso de lato sensu, estão profundamente imbricadas.

Este trabalho tem raízes na paixão. Primeiro a paixão do autor pela música punk, depois pelos fanzines. Então, Renato Donisete descobriu que poderia fazer uma publicação autoral, de baixo custo, auto-editada, com espaço aberto para a criação e que poderia comunicar-se, desta maneira, com sua comunidade de interesse comum. Assim, em setembro de 1990 nasceu o fanzine Aviso Final, um fanzine para divulgar o trabalho de bandas punks independentes. Este fanzine existe até hoje, tendo inclusive ido além das terras brasileiras e possibilitou ao seu autor tornar-se um fanzineiro, viver a experiência do fanzinato, trabalhar na perspectiva da produção/animação/re-invenção cultural. Ora, como explicar uma produção permanente de mais de vinte anos a não ser pela paixão? Que relacionamento mantém-se viçoso, aceso, fogoso, criativo e prazeroso se não existe mais paixão? Normalmente quando a paixão acaba então viceja a burocracia, o fogo acaba e os olhos deixam de brilhar. Não é o caso de Renato Donisete e de seu Aviso Final. Ao fazê-lo, refazê-lo e reinventá-lo, alimentando-o e dele se alimentando durante todo este tempo, pode ousar novas práticas fanzineiras em outros ambientes culturais, como é o caso da escola, onde atua como professor de Educação Física.

E aqui outra paixão do autor: a vida do ser humano; o corpo; o movimento; o pensamento crítico que não se resume à racionalidade, mas que é corpo; a autonomia; a vida cidadã; os processos educativos escolares que permitam a formação de cidadãos e cidadãs interessados/as numa sociedade com capacidade de permanente re-invenção e justiça para todos e todas. Objetivos grandes demais, alguém dirá. Mas que se perseguem também com “pequenos” construtos culturais, como é o caso dos fanzines, capazes de provocar espanto, reflexão, indignação, rebeldia e transformações, por menores que sejam.

Destas paixões e do trabalho numa escola municipal paulistana, de viés democrático e participativo, surgiu a possibilidade de Renato Donisete trabalhar a disciplina de Educação Física por meio dos fanzines. Ele faz o relato desta experiência neste trabalho. Chamo a atenção sobre dois aspectos que considero importantes. O primeiro, o autor parte de sua experiência vivida, de sua paixão, de uma prática de muitos anos. Não despreza a teoria, da qual apresenta algumas referências aqui, mas sua base é sua prática que está sendo pensada e repensada. Considerando-se que o autor mantenha aceso este trinômio prática/paixão/teoria, pode ser que em algum tempo inicie uma elaboração mais sistemática de seu próprio discurso teórico sobre este tema, educação e fanzines, ainda tão incipiente. Segundo, sobretudo na experiência de Renato Donisete, pois ele relata outras experiências, porém com menos detalhes, não é possível deixar de considerar o contexto da escola em que a produção dos fanzines é efetuada: uma escola de princípios dialogais e democráticos, que entendeu a necessidade de um bom projeto político-pedagógico, que compreendeu a importância prática do trabalho coletivo e na qual há partilhas de experiências permanentes entre os docentes.

Neste trabalho, o autor apresenta ainda experiências, práticas e de pesquisa, em outros lugares do Brasil: Belo Horizonte (MG), Viamão (RS), Teresina (PI), São Bernardo do Campo (SP) e São Paulo (SP). São experiências ricas, cuidadosamente recolhidas e que pedem para ser lidas com bastante atenção e criatividade, em alguns casos indo diretamente à fonte bibliográfica.

Termino com um lembrete de cuidado: os fanzines são uma experiência de paixão, criação, autoralidade, rebeldia, autonomia e transgressão. Muitas práticas escolares, apesar de um discurso democrático, dialogal e participativo, são, na verdade, ainda práticas bancárias, autoritárias, domesticadoras. Quando se vai trabalhar com fanzines na escola o que não pode acontecer é eles serem construídos dentro de tais práticas que terminam por engessar a criatividade e os movimentos de transformação. É uma negação do espírito fanzineiro. E aqui fica um grande desafio para os educadores e educadoras: como trabalhar com os fanzines dentro de sala de aula, considerando o contexto escolar, e não cair em tais práticas?

Renato Donisete dá aqui algumas pistas, mas muitas outras poderão surgir a partir das provocações desta leitura. Aproveite. Crie. Re-invente.

Elydio dos Santos Neto (2)

(1) ALMEIDA, Danilo di Manno de. Por uma pedagogia apaixonada. In: Educação e Linguagem, ano 2, n. 2, 1999, p. 101-117. São Bernardo do Campo: Editora da UMESP.
(2) Doutor em Educação pela PUC-SP. Pós-doutorado pelo Instituto de Arte da UNESP-SP. Docente e pesquisador da Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador da área de gestão escolar e também quadrinhos, fanzines e educação. Participa dos seguintes grupos de pesquisa: Imaginário (UFPB); GEPEAV (UFPB); GEPF (UMESP).

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